Facebook guiou decisões do 1º ano de Larry Page como CEO do Google

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Quando Larry Page substituiu Eric Schmidt em abril de 2011, ele insistiu que a empresa deveria ser mais agressiva na luta contra a ameaça representada pela popularidade cada vez maior do Facebook. Page respondeu com uma operação que ainda está remodelando o Google, enquanto ele completa um ano como presidente-executivo nesta quarta-feira (4).

A obsessão pelo Facebook levou a empresa a criar sua própria rede social e inspirou mudanças nas políticas de privacidade da companhia e nos resultados de busca. As mudanças têm levantado dúvidas se o Google abandonou o lema "não seja mau" para proteger seu império de publicidade on-line.

Larry Page tem 39 anos e fundou o Google em 1998 com Sergey Brin (Foto: Paul Sakuma/AP)Larry Page tem 39 anos e fundou o Google em 1998 com Sergey Brin (Foto: Paul Sakuma/AP)
“O Facebook acordou o Google para suas deficiências no aspecto social da internet. Não era algo que poderia ser ignorado”, disse Steven Levy, cujo livro “In The Plex" mostra as origens do Google e sua evolução ao longe de 14 anos.

Se preocupar se o Facebook pode destruir o Google parece ser um exagero, dado o predomínio da companhia nas buscas e no mercado publicitário. Em 2011, o Google vendeu US$ 36,5 bilhões em publicidade – 10 vezes mais que o Facebook (US$ 3,2 bilhões). Mas Page percebeu que o Facebook vem conquistando uma vantagem competitiva que poderia ser aproveitada para derrubar o Google.

Google+
Desde a sua criação, em 2004, o Facebook tem armazenado informações valiosas sobre os interesses e as amizades de seus usuários. O volume de dados no Facebook cresceu rapidamente junto com sua popularidade. Isso tem proporcionado à rede social meios para direcionar os anúncios com mais precisão e oferecer conteúdo ligado aos interesses das pessoas.

O Google não pode usar esses dados do Facebook para refinar o seu mecanismo de busca. Por isso, a companhia desenvolveu sua própria rede social. Desde sua estreia, há nove meses, o Google+ atraiu mais de 100 milhões de usuários, embora o número seja menor que os 845 milhões do Facebook.

Porém, o Google+ não provou que pode chamar a atenção dos usuários. Os visitantes têm gastado uma média de alguns minutos por mês na rede social, na comparação com as seis ou sete horas no Facebook, de acordo com a empresa de pesquisa comScore.

No entanto, o Google+ e outros recursos de redes sociais lançadas desde que Page assumiu a empresa permitiram saber mais sobre a vida dos usuários, assim como o Facebook tem feito há anos. Agora, o Google pode tentar usar um pouco desse conhecimento para vender mais anúncios, fonte de praticamente todas as suas receitas.

Ações
A ameaça do Facebook pode se tornar ainda maior depois que a empresa lançar sua oferta pública inicial de ações, que deve ser feita em maio. O IPO (na sigla em inglês) deverá levantar US$ 5 bilhões e gerar publicidade gratuita que poderia aumentar ainda mais o tráfego na rede social.

O Google disse que Page estava muito ocupado para dar entrevistas sobre seu primeiro ano como presidente-executivo, cargo que ele recuperou depois de deixá-lo para Schmidt em 2001. Page havia sido CEO da empresa durante os três primeiros anos do Google, mas os investidores exigiram um líder mais experiente.

Schmidt, agora presidente do conselho Google, descreveu, em 2011, a sua incapacidade de desafiar o Facebook como um dos seus maiores erros. Quando ele assumiu o cargo de CEO, Page rapidamente mostrou sua prioridade ao mudar escritórios e executivos do Google para o mesmo edifício que a equipe que trabalha no Google+.

Page também garantiu uma parte do bônus aos funcionários para o sucesso do Google+ e eliminou o que ele considerava serem distrações desnecessárias, fechando mais de 20 serviços menos populares da empresa. “Larry é impulsionado por sua paranoia pelo Facebook.

Claramente, essas duas empresas estão em guerra uma com a outra”, disse Ken Auletta, que conheceu Page ao escrever seu livro sobre a empresa, "Googled: The End of the World As We Know It ".

Page tem muitos outros desafios para enfrentar enquanto ele entra no seu segundo ano de reinado. O Google também está lutando contra investigações regulatórias nos EUA e na Europa devido às mudanças nas suas práticas de privacidade. Seu sistema operacional para smartphones e tablets, Android, está colidindo com a Apple no mercado de computação móvel. E o Google está perto de completar sua maior aquisição – a compra por US$ 12,5 bilhões da fabricante de celulares Motorola Mobility.

Page também está tentando conquistar Wall Street. Embora o Google esteja mais próspero do que nunca, o preço das ações não manteve o mesmo ritmo do resto do setor de tecnologia. O preço das ações da empresa subiu 9% desde que Page se tornou CEO, mas o papel trilhou um ganho de 12% no índice Nasdaq. O índice S&P 500, que inclui o Google, aumentou 6% no mesmo período.

Algumas das táticas do Google para afastar o Facebook têm sido interpretadas como sinais de que o Google está se transformando em uma empresa cruel e disposta a ir onde for para proteger seu negócio principal. Isso foi algo que Page e o cofundador Sergey Brin juraram que nunca iria acontecer quando o Google apresentou seus planos para entrar na bolsa em 2004.

Em uma carta a investidores, Page expôs as razões pelo qual o Google adotou "não seja mau" como um de seus princípios. "Acreditamos fortemente que, no longo prazo, estaremos bem servidos por uma empresa que faz coisas boas para o mundo, mesmo que renuncie de alguns ganhos no curto prazo", escreveu Page. A sinceridade desses compromissos está sendo questionada enquanto o Google se aprofunda na busca por dados pessoais.

Uma mudança recente na política de privacidade do Google provocou o mais alto clamor. Cerca de um mês atrás, o Google unificou 60 políticas de privacidade de modo que poderia juntar as informações pessoais de usuários que se registram em seus serviços. O Google explicou que a mudança é uma abordagem mais simples que beneficiaria os usuários, mas a empresa também reconheceu que iria traçar um perfil mais significativo para os anunciantes que querem se conectar com potenciais clientes.

Outra reação sobre a privacidade cresceu depois que um aluno de Stanford publicou uma pesquisa em fevereiro. Ele mostrou que a empresa tinha ignorado as definições de segurança no navegador Safari, para iPhones e iPads, para rastrear as atividades on-line dos internautas. O Google chamou a invasão de um desdobramento involuntário de um esforço da companhia para permitir que os usuários do Safari pressionassem o botão “curtir” do Google+. O Google desativou o controle depois que ele foi revelado.

O Google também mudou seus resultados de busca em janeiro para dar aos usuários a opção de destacar os resultados do Google+. Entre outras coisas, o motor de busca começou a incluir sugestões de pessoas que eram seguidas na rede social, excluindo as recomendações para o Facebook e o Twitter, ambos mais usados que o Google+.

Os críticos, porém, zombam das explicações e apontam para o preconceito como outro exemplo de como o Google está abusando da sua posição dominante de pesquisa na internet para dirigir mais tráfego para seus serviços. As acusações são uma parte central das investigações regulatórias em curso nos EUA e na Europa.

Ambos Auletta e Levy veem o que está acontecendo no Google como parte do inevitável amadurecimento da empresa e de Page, que completou 39 anos na semana passada. "A chama idealista ainda arde no Google", disse Auletta. "Mas o que acontece, enquanto o tempo passa e você não é mais uma empresa jovem, você tem que assumir os compromissos da vida adulta. O Facebook, eventualmente, vai ter que enfrentar as mesmas questões".