Conheça Ricardo Juarez: a voz por trás de Kratos e Draven de League of Legends

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O trabalho da dublagem é muito aspirado por jovens e adultos que gostariam de eternizar suas vozes em personagens memoráveis. Entretanto, como é o trabalho de um dublador? Quais desafios ele enfrenta no início de sua carreira? Para responder a estas e outras perguntas, convidamos o dublador Ricardo Juarez (dublador do Hellboy, Kratos, Draven e muitos outros) para um bate-papo descontraído sobre sua carreira e dúvidas que muitos tem sobre o mercado de dublagem. 

Confira:
Ricardo Juarez (Foto: Montagem / Divulgação)Ricardo Juarez (Foto: Montagem / Divulgação)
TechTudo - O que o motivou a seguir a carreira de dublagem?
Ricardo Juarez - Tudo começou na época em que eu pensava em seguir a carreira de locutor. Nesta época, as pessoas diziam que eu tinha uma boa voz , mas que eu devia fazer teatro para poder ficar com uma voz menos impostada, com interpretação mais natural. Então, fiz o curso de teatro, e muitos colegas que estavam estudando junto comigo falaram que queriam seguir a carreira de dublagem. Após isso, resolvi fazer dublagens também, mas sem grandes pretensões, nada em pensar em pegar papéis grandes e médios, apenas algumas pontas em gravações.Tive a sorte de estar no mesmo estúdio em que estava sendo realizado o teste para o Johnny Bravo, e o Diretor de Dublagem Hércules Fernando (dublador do Cérebro, do Pink e o Cérebro), disse: “Estão rolando os testes para dublar um novo desenho: o Johnny Bravo. Eu preciso de alguém para colocar no personagem e acho que sua voz encaixa com a dele. Tem como quebrar um galho, já que o dublador faltou?”. Daí, então, minha carreira melhorou, onde comecei a pegar papéis maiores para dublar.
TT – Na época em que você iniciou já existia um grande mercado para dubladores, ou esse ramo era muito novo e estava começando a se destacar?
RJ - Então, aquela época era começo dos anos 90. A Internet era discada, poucas pessoas a tinham e não existia rede social. Todo o acesso que as pessoas tem hoje, de entrar em contato com os dubladores via Internet, naquela época não existia. Era tudo em cartas feitas a mão e as pessoas não conheciam os rostos dos dubladores. Digo isso sobre a Internet, pois naquela época a dublagem tinha muito mais espaço do que hoje. Falando financeiramente, a dublagem é uma “Montanha-russa”, onde em um mês você pode ganhar um cachê excelente de R$ 1000 ou R$ 1500, mas no mês seguinte você pode ganhar somente R$ 500 ou R$ 600. A dublagem é uma profissão tão incerta, que hoje em dia ela se tornou quase um Hobby para mim. Embora eu goste de dublar e seja apaixonado por dublagem, eu atualmente só entro em projetos que eu realmente tenha vontade de participar, pois o meu carro-chefe é a locução.
TT – Com chegada da Internet, houve o marco de um novo tipo de conteúdo: as FanDubs (Dublagens feitas por fãs). Como você vê essa galera que tem trazido novos conteúdos, traduzindo animações e filmes de forma totalmente independente?
RJ - Eu acho muito legal! Inclusive, eu mesmo já vi alguns que são muito talentosos. Embora eu não saiba se eles já fizeram algum curso ou trabalho referente a dublagem, vejo muitos fãs que tem talento para estar no mercado de dublagem. Embora alguns colegas dubladores se incomodem com este fato, eu acredito que esta atividade é uma ótima oportunidade para eles estarem exercitando e se preparando para entrar no mercado.
TT – Como você vê o mercado brasileiro de dublagem atualmente?
RJ - O mercado cresceu bastante. Hoje você tem opções como TV a cabo, onde lhe dá a opção de ter o áudio original ou dublado, por exemplo, fato este que eu acho muito importante, pois eu acredito que todas as pessoas tenham o direito de assistir dublado ou legendado. Se dublado for melhor que legendado é uma decisão de cada um. Quanto aos games, eu acredito que daqui há alguns anos ele vai se equivaler à dublagem de filmes.
TT - Em comparação a outros países, o que falta para o Brasil alcançar o ápice de qualidade em dublagem?
RJ - A dublagem já teve sua época de ouro nos anos 80 e até o final dos anos 90. A tecnologia barateou muito esse processo. Hoje em dia você pode montar um computador que esteja pronto pra gravar áudio profissional em casa mesmo, por exemplo. O grande problema disto é que começaram a surgir os “Estúdios de R$ 1″, em que eles colocam o preço muito abaixo do mercado. Por exemplo: um estúdio cobra R$ 20 mil, aí vem outro estúdio e diz: “Eu faço por R$ 3 mil”. Por isso existem muitos estúdios que não tem acústica boa, não tem bom microfone e principalmente, pessoas que não estão preparadas para encarar este mercado. Isso gera falta de qualidade e profissionalismo nas dublagens. O que acho que falta nos estúdios de hoje em dia é organização principalmente a cobrança do público. Neste último caso, há, por exemplo, aquelas pessoas que ouvem um filme e não reconhecem ninguém que está dublando, pois possivelmente o estúdio que fez a dublagem é um desses estúdios que estão “queimados” no mercado.
Draven: campeão do League of Legends também é dublado por Ricardo Juarez (Foto: Divulgação)Draven: campeão do League of Legends também é dublado por Ricardo Juarez (Foto: Divulgação)
TT - Um grande diferencial seu para outros dubladores, Ricardo, é que você já dublou praticamente tudo que tem para ser dublado. Contudo, o que é mais difícil dublar um desenho, filme, animação ou jogo?
RJ - O jogo fica em primeiro lugar em termos de dificuldade. Quando se está dublando um desenho ou filme, você tem uma tela que mostra exatamente a cena que está acontecendo, como um personagem levando um tiro, tomando um soco ou quando ele faz esforço pra levantar uma pedra. Já nos jogos, você escuta apenas o áudio original, sem ter nenhuma visualização da cena em si. Outro problema é que nas dublagens de filmes e desenhos você tem todo o texto que será falado na cena, tanto a sua fala quanto a dos outros personagens, já nos jogos não há isso, você só possui as suas falas. Mais nada. Sendo assim, você tem que ter grande imersão nas falas do ator original e prestar bastante atenção aos detalhes, que podem ser uma respirada mais forte durante a fala, o tom da voz, etc. Com base nisso, eu faço uma dublagem para uma cena em que talvez o personagem esteja mexendo os braços, ou suando, ou nervoso, dentre outras. Eu, por exemplo, fiz as dublagens do Ryse: Son of Rome e somente vi as imagens agora, nos trailers.
TT – Os estúdio lhe concedem uma cópia dos títulos que são dublados por você?
RJ - Infelizmente, muita gente se engana neste fato sobre o dublador. Todos os filmes, desenhos e jogos que eu dublei, foram comprados com meu próprio dinheiro. Há poucos casos onde isso ocorre. Uma vez uma loja me deu uma estatueta do Kratos após o dono me reconhecer. Seria bom se ganhássemos (risos), mas não é o que realmente acontece.
TT - Você, além de dublador, também gosta de fotografias. Há pouco tempo, inclusive, você lançou um livro onde suas fotografias foram impressas. Mas, além destes hobbies, quais outros trabalhos você realiza?
Hecarim do LOL também é dublado por Juarez (Foto: Divulgação)Hecarim do LOL também é dublado por Juarez (Foto: Divulgação)
RJ - Eu realizo muitos trabalhos de locução e publicidade. Hoje, eu gravo as vozes da Rádio Globo por todo o Brasil, fazendo chamadas e vinhetas. Também faço as vinhetas do Jornal Nacional, o “Top de 5 segundos” antes do futebol, dentre outros.
TT - Nós sabemos que há uma grande equipe trabalhando em prol de um projeto de dublagem. Como é o processo para dublar um jogo?
RJ - Esse processo é bem parecido com uma dublagem de filmes: inicialmente, os tradutores recebem o texto em inglês e fazem a tradução. Após isso, eles passam a frente para o Diretor, que irá escalar três candidatos que possam interpretar a voz do personagem. As vezes, são realizados testes para mais de um personagem, outras vezes não, onde neste último o diretor já passa ao candidato qual personagem ele irá interpretar. O Diretor de Dublagem tem como função, dentre outras, aconselhar e acompanhar a direção de voz, além de orientar o dublador, como passar para ele o que está ocorrendo na cena que está sendo dublada, para que a mesma possa fluir de uma forma muito mais natural.
TT – Um outro trabalho notável seu foi a dublagem dos campeões Draven e Hecarim, do jogo League of Legends. Como foi fazer esse trabalho junto com a Riot?
RJ - Leonardo Santhos me chamou pra fazer os testes. Inclusive, gostaria de agradecê-lo pela grande oportunidade. Ele apresentou um áudio meu para a Riot e eles me aprovaram para o papel do Draven e do Hecarim. Como eu jogo mais pelo console do que pelo PC, sinceramente, eu não sabia do sucesso que League of Legends tinha com o público brasileiro. Até hoje eu fico surpreso, porque muitas pessoas me reconhecem na rua e dizem: “Nossa, você é o Draven! (risos)”.
TT - Quais foram seus trabalhos mais notados pelo público?
RJ - Johnny Bravo; Melman, do Madagascar; Hellboy; o Narrador do Digimon; e os mais recentes: Kratos, do God of War; e Draven, do League of Legends.
Além de dublador, Ricado Juarez é gamer e fez esse espetacular cosplay de Kratos (Foto: Reprodução/Ricardo Juarez)Além de dublador, Ricado Juarez é gamer e fez esse espetacular cosplay de Kratos (Foto: Reprodução/Ricardo Juarez)

TT – Como foi dublar o Kratos?
RJ - Quando eu descobri que eu iria ser o dublador do Kratos eu fiquei aproximadamente uma hora “fora do ar”. As pessoas vinham e falavam comigo, e eu nem respondia. Minha cabeça estava longe, pois eu mesmo não estava acreditando que tinha passado, já que o teste havia sido muito, muito difícil e exigido. Eu pensei: “Poxa, o Kratos está aí desde o Playstation 2, e agora eu serei a primeira voz do Kratos no Brasil!”. Isso pra mim foi motivo de honra e irei carregar isso pelo resto da vida. Na verdade, eu fiquei mais surpreso com a quantidade de pessoas que gostaram da dublagem. Eu pensava que 99% iria odiar, e 1%, incluindo mãe, irmão e avó iriam dizer: “Ficou bom!”. Mas foi o contrario, muitas pessoas aprovaram a ideia e me parabenizaram.
TT - Além de dublador, você também é gamer. Qual é o seu jogo favorito, e em qual jogo você acredita que houve um ótimo trabalho de dublagem?
RJ - Eu acho que o jogo que teve melhor qualidade geral do elenco foi Diablo. Com relação a Jogo Favorito, é difícil de escolher um só. Eu sou muito fã de FPS, joguei todos os Battlefield, Call of Duty, e até já “paguei mico” jogando Resident Evil, quando eu gritei durante uma cena do jogo, mas o grito foi de macho, não igual ao do Johnny Bravo (risos). Escolher um jogo só seria como tentar escolher uma torta muito deliciosa no meio de tantas outras (risos). Contudo, um jogo que adorei, porque este mudou o conceito de Jogo e se transformou quase em um Filme, foi The Last of Us, que foi um trabalho sensacional. É um jogo em que eu jogava e jogava, até perceber que já eram 2:00 hrs, mas que eu não conseguia parar de jogar. O Luiz Carlos Persy, que dublou o Joel estava sensacional, assim como todo o elenco.
TT - Quais são os principais desafios que um dublador iniciante enfrenta?
RJ - Seu principal desafio é conseguir espaço no mercado. Devido a insegurança financeira que essa profissão pode trazer no início, é necessário que você tenha alguma atividade paralela a dublagem. Como você já tem o Registro de Ator Profissional, você pode ingressar em teatro, televisão, rádio, dentre outras, pois viver só da dublagem é bem arriscado, mas não quer dizer que seja impossível.
TT - Algum conselho para quem quer iniciar nesta incrível carreira?
RJ - Tenha paciência, porque o processo de crescimento é muito lento. É possível viver apenas de dublagem? Sim. Mas, poucos conseguem sobreviver apenas dessa arte com tranquilidade. Depois de 20 anos no mercado, percebi que não seria possível pagar todas as minhas contas somente dublando, por isso, hoje em dia 90% do meu tempo é dedicado a locução, onde os cachês são muito mais altos e é mais fácil ser chamado para gravar. Dublagem hoje só de vez em quando. É uma paixão muito grande que tenho por essa profissão. Se você realmente quer entrar na dublagem, tire o seu Registro Profissional de Ator e comece a batalhar por espaço no mercado. Lembrando que é importante ter algo paralelo.
TT - Quais serão seus próximos trabalhos?
RJ - Acabei de ser anunciado na expansão do Diablo: Reaper of Souls, onde eu serei o Cruzado. Por enquanto só posso dizer isso.